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PERCURSO DE PINTURA

 O percurso , os motivos , a história ...
                                     até chegar aos quadros de cores luminosas em fundo negro
   

     a resposta em relação à pergunta que tantas vezes fazem sobre os quadros negros                          sugerindo que pintasse o céu de azul escuro para ser mais realista     
                                                                                                                                                                                            ..........................
                                        ............................


             O texto abaixo começou por ser um texto com meia dúzia de parágrafos tentando descrever os motivos principais que levaram à pintura dos quadros nocturnos mas, como palavra puxa palavra, o texto foi -se desenvolvendo cada vez mais e a certa altura desisti de fazer um texto reduzido e sucinto. Com o passar do tempo acabou por se tornar uma espécie de ensaio auto biográfico relacionado principalmente com a pintura.
        Uma vez que este site é um espaço dinâmico e em perman
ente desenvolvimento talvez mais tarde acabe por se tornar mesmo uma espécie de auto biografia com ilustrações e banda sonora. Talvez um Jardim de Memórias.



 

 

 

 

 

 

 

 

                                               A INFLUÊNCIA DA JUVENTUDE 

 
          Nos primeiros anos dedicados à pintura foi um tempo de fazer todo o tipo de experiências em técnicas e materiais diversos, predominando os trabalhos de foto colagem com pintura iniciados no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra.  Mas algum tempo mais tarde o facto de ter passado por diversas situações de pintar ao vivo, nos anos oitenta e noventa, no centro histórico de algumas cidades (Lisboa, Paris, Coimbra e Figueira da Foz ) sempre em contacto directo com as pessoas, também teve alguma influência para tentar encontrar um meio termo entre a pintura que gostava de fazer e a pintura que as pessoas pediam. Talvez pela experiência adquirida em relação ao tipo de cores e efeitos que mais tinham a ver com o  subconsciente colectivo depois, mesmo nas encomendas, também era impossível pintar sem incluir um cunho pessoal. Era bastante frequente fazerem encomendas de antigas casas de família ou outras paisagens com valor sentimental e faziam questão que fosse dentro do mesmo estilo de outras feitas anteriormente.  Uma vez que estava a pintar ao vivo e na aguarela era possível perceber as pinceladas anteriores pela transparência da cor e também por causa do pormenor e da precisão do traço era fácil ver que não eram esboços nem trabalhos rápidos mas quase sempre aguarelas bastante morosas e trabalhosas, e, talvez por isso, sentia que as pessoas valorizavam bastante o trabalho, não regateavam os preços bastante acima da média para os pintores que não tinham apoio de galerias, e era muito frequente fazerem elogios que se percebia serem mesmo sentidos e fervorosos.
     



        No início dos anos 80 , quando a pintura abstracta começou a ser preponderante, parecia haver algum medo de as pessoas comentarem por pensarem que eram elas que não entendiam a linguagem utilizada. Mas com o passar do tempo , pelas conversas que ia tendo com  pessoas de todo o tipo de formação, ia -se notando cada vez mais que as pessoas comuns perdiam o medo de comentar e dizer que não gostavam de certos tipos de arte abstracta, não por ser abstracta mas por ser demasiado simplista ou conceptual e quase sempre indecifrável,  uma vez que também achavam que eram modas efémeras.
        Não quer dizer que essas mesmas pessoas também não admitissem que havia de facto pintura  abstracta com conceitos inovadores e que foram aparecendo diversos movimentos contemporâneos que fizeram a arte evoluir mas talvez porque no meio dessa evolução também foram aparecendo diversos artistas que procuravam chamar a atenção e criar impacto apenas com imagens bizarras baseadas no ‘non sense’ também foi aparecendo em simultâneo um certo fenómeno de rejeição e descrédito e o consequente afastamento do público em relação a um certo tipo de exposições. 
         O motivo de haver um certo fenómeno de rejeição não tinha a ver com o facto de ser abstracto , porque todos reconhecem que há pintura abstracta lindíssima e que explora novos efeitos visuais e novas técnicas de linguagem , e que há pintura abstracta em que é difícil distinguir onde acaba o abstracto e começa o figurativo e que todos admiram. O motivo da rejeição, penso eu, estava mais associado a várias vertentes de pintura ou arte niilista que pretendiam ser inovadoras pelo simples facto de rejeitarem todos os conceitos de evolução estética ou artística do passado. Cada vez era mais frequente ouvir dizer que a estética nada tinha a ver com arte ou que a arte nada tinha a ver com estética, abrindo as portas a que tudo pudesse ser considerado arte apenas devido ao contexto. Se alguém resolvesse colocar vinte cigarros equilibrados na vertical, segundo um padrão subjectivo inventado pelo autor, passava a ser arte pelo simples facto de estar fora do contexto habitual. Os critérios para que algo pudesse ser considerado arte passariam a ser de tal forma alargados que bastava haver uma teoria ou um conceito, quer fosse académico ou individual, por trás de um qualquer objecto para que este fosse considerado uma obra de arte, e o distanciamento em relação ao público ou ao colectivo é natural que também fosse cada vez maior.
      Possivelmente as pessoas em geral também pensavam que fazia muito mais sentido aprender com o passado para depois evoluir consoante a criatividade de cada um.  


       Nos anos 90 e na viragem do século parece ter havido uma espécie de movimento de revivalismo em que todos os estilos artísticos do passado voltavam a ser usados e cada um seguia o que mais lhe agradava sem grandes descriminações. Aquele conceito de que uma pessoa criativa só precisa agradar a si mesmo, independentemente de tudo o que o público possa pensar, parecia começar a fazer cada vez menos sentido.
       Mas, apesar de ter havido mais abertura em relação à reinvenção dos diversos estilos de pintura do séc. XX , na generalidade dos meios artísticos continuou sempre a haver um arreigado e irredutível preconceito em relação à pintura realista como se toda a pintura realista fosse igual e quem se atrevesse a aproximar do realismo só pudesse ser alguém que vivia completamente fora da realidade do meio artístico contemporâneo. Como se já não fosse possível explorar mais nenhuma área nem criar um estilo próprio na pintura que se aproximasse do realismo. Ou como se quem faz pintura com aproximações ao realismo fosse apenas quem está a aprender a pintar imitando os clássicos ou pintando apenas por passatempo.  
      O conceito da pintura gestual espontânea parece ter ficado tão enraizada ao longo do séc. XX que era bastante frequente ouvirem -se comentários em relação a quem não a utilizasse como se fosse uma espécie de artesão gráfico.
      A única forma de escapar a esse tipo de preconceito parece ter sido quando os pintores hiper realistas começaram a ser mais divulgados.

 



         O contacto directo e permanente com as pessoas para quem pintava foi fazendo com que adiasse o desejo interior de fazer experiências totalmente fora dos parâmetros convencionais que poderiam ter muito interesse pessoal mas que seriam sempre uma experiência subjectiva que só o próprio autor iria entender. E acabou também por obrigar a uma certa disciplina na tentativa de fazer pintura acessível às pessoas mas ao mesmo tempo sem perder a própria criatividade e numa espécie de compromisso entre o próprio imaginário visual e o que imaginava ser o imaginário visual do subconsciente colectivo. Mesmo sabendo que o subconsciente colectivo era subjectivo também.
       Logo nos primeiros trabalhos feitos por encomenda depressa percebera que afinal o aparente condicionamento do desenho
figurativo acabava por se tornar antes um desafio uma vez que as alterações da perspectiva faziam toda a diferença na composição final e a liberdade de poder jogar com as cores e com a intensidade da luz e sombra, desfocar e mesmo alterar diversos elementos das imagens, combinar a aparente realidade com todos os efeitos do céu, das nuvens, das águas, da vegetação, dos efeitos do tempo sobre as pedras,  etc, etc,  acabaram por se tornar num excelente exercício para perceber quais os elementos que realmente faziam diferença em todo o conjunto visual.  
       O hábito de viajar sozinho, por vezes até mesmo em aldeias do interior onde raramente passavam forasteiros, também foi fazendo com que tivesse sempre uma atenção muito particular em relação a todos os pormenores da paisagem, quer fossem paisagens naturais ou humanizadas. Em relação às paisagens humanizadas por vezes tinha a sensação de que alguns lugares pareciam ter uma energia própria, quase como se tivessem uma alma etérea, criada tanto pela geografia do lugar, pela inclinação ou pela altitude, pelo facto de estarem expostas a nascente a sul ou a poente, por exemplo, como também pela interacção entre a arquitectura das casas e pela história comunitária do próprio lugar. E era esse ambiente, essa alma ou a luz dos lugares que por vezes tentava transmitir nas perspectivas e na cor da pintura.

         Talvez por todo esse tipo de experiências o objectivo de querer ser diferente pelo simples facto de ser diferente e ter um estilo próprio como intenção principal nunca foi uma grande preocupação. O ser diferente e o estilo próprio é algo que vai surgindo naturalmente a partir das descobertas feitas pela experimentação e também se vai formando a partir da intenção interior que se quer transmitir.

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      Além do mais o facto de tantas pessoas, de todo o tipo de extractos socio culturais, fazerem elogios tão sinceros sempre incentivando a continuar, e ao mesmo tempo demonstrarem um sentimento de confiança por desabafarem o que realmente pensavam em relação a certos  tipos de pintura contemporânea também fez com que mantivesse sempre uma espécie de compromisso de fazer arte acessível ao público comum em vez de enveredar por caminhos mais subjectivos , elitistas e inacessíveis. 
       Depois havia ainda a percepção como se, de certa forma,  já tudo tivesse sido inventado e experimentado na base do desconstrutivismo, como se aquela frase de uma música dos Radio Macau "não há nada de novo debaixo do céu" se repetisse constantemente perante todas as novidades niilistas que iam aparecendo e fizesse pensar que mais valia ir pintando e ir deixando a imaginação correr livremente e sem permitir que as teorias e os conceitos do academismo contemporâneo interferissem ou tivessem qualquer tipo de influência no evoluir natural da própria criatividade.

       Para além de todas essas experiências que haviam ficado da juventude , por vezes também esboçava um ligeiro sorriso interior pensando para com os próprios botões que o facto de ter optado por um tipo de pintura que só depois de regressar ao clássico e ao convencional é que evoluía para um estilo próprio  talvez também tivesse a ver com um forte espírito de contradição que já tinha desde a infância.

      Numa época em que no mundo das artes todos queriam ser diferentes com o objectivo único de simplesmente ser diferente e fazer algo que nunca ninguém tivesse feito antes, talvez a maior diferença fosse voltar a ser igual. 
      Era o eterno espírito de contradição que sempre fizera com que gostasse de estar fora de moda, até mesmo em relação aos que também faziam tudo para ser contra corrente.

Sugestão de música ambiente

                                          REGRESSAR À TERRA
 

        Algo de semelhante também tinha acontecido na altura em que estudava filosofia, quando tinha vinte e dois anos, e em que também sentira necessidade de voltar atrás para depois recomeçar outra vez a partir do zero. Tinha passado tanto tempo fechado em salas e bibliotecas a tentar descodificar a razão de ser da nossa existência enquanto seres humanos, a ler, estudar, escrutinar e comparar filosofias, cada uma querendo ter mais razão que a dos seus antecessores, que a certa altura já só via contradições vãs e a sensação era a de estar no cesto de um balão de ar quente vendo os seres humanos como formigas lá na terra.           
        Enquanto tentava perceber, dissecar, analisar e explicar o significado da existência a vida continuava a acontecer do lado de fora das janelas, e seguia o seu caminho, indiferente a todas as teorias que os seres humanos tinham inventado acerca dela. Como mulher altiva que segue o seu caminho indiferente a todos os comentários balofos dos homens pasmados. 

       A sensação principal durante essa fase era a de ter perdido os melhores anos de vida sempre fechado em salas e bibliotecas enquanto a vida acontecia lá fora. E desde então que o principal objectivo passou a ser o de descer à terra e pisar o chão da vida, fazendo tudo para tentar esquecer as teorias vãs e contraditórias com que alguns seres humanos tentavam descodificar a existência. Mesmo sabendo que iria ser muito difícil perder o vício de querer racionalizar tudo e mais alguma coisa, desde o simples gesto de levar um copo à boca até aos porquês da beleza e da psicologia feminina.

       Foi essa necessidade de voltar a viver que também acabou por ser um dos principais motivos para pensar que através dos ambientes ligados à arte em geral seria uma das melhores maneiras de descer das nuvens e voltar a ter contacto com a realidade e, mais tarde, com a vida verdadeira do dia a dia. Era como se estivesse a viver uma segunda juventude depois de a primeira ter sido interrompida.

       Recomeçar do zero depois de uma fase de amnésia total que durou semanas e um a dois anos para recuperar, quando tinha 18 anos, tinha sido uma grande dificuldade, mas com o passar do tempo recomeçar do zero começou a tornar -se um hábito e mais tarde acabaria por se tornar mesmo uma necessidade, aliada à necessidade de novos desafios.         
      Até porque o esforço feito para conseguir recuperar a memória ao longo de dois tortuosos anos acabaria por desenvolver ainda mais a capacidade de pensar por cabeça própria e de uma forma completamente independente de todos os condicionamentos e limitações provocados pela educação familiar e pelo ambiente social exterior. Acabou por ser a vida toda mas principalmente durante os dois primeiros anos era como se estivesse recolhendo peças de um imenso puzzle que tentava reconhecer e depois guardava para tentar reconstituir os acontecimentos de infância e adolescência. Era frequente, na rua no café ou no autocarro, ver pessoas que não conhecia mas cuja fisionomia sabia que faziam lembrar de alguém e tentava fixar a imagem dessas pessoas insistentemente para depois ficar com elas às voltas na cabeça até que, por vezes só uma semana depois, é que de repente percebia quem é que fazia lembrar. É natural que as memórias afectivas e emocionais positivas, fossem sendo bastante  mais fáceis de recuperar mas muitos pormenores de acontecimentos mais circunstanciais e mais específicos  provavelmente nunca foram recuperados.  
       Daí que a necessidade de voltar a estar com pessoas e a conviver também fosse uma forma de reviver situações que por sua vez fariam lembrar de outras acontecidas no passado distante. Talvez até que o esforço feito para recuperar a memória tenha feito lembrar de mais coisas ainda do que lembrava antes, inclusive algumas que tinham permanecido apenas no subconsciente.

       A música que já na adolescência havia sido uma grande paixão acabou por se tornar numa espécie de fio condutor para reviver muitos acontecimentos do passado.
       Apesar de estar mais ligado ao mundo da pintura e, em paralelo, também a algumas áreas de artesanato, grande parte dos amigos com quem convivia estavam mais ligados à música. E foi assim que os anos 80 se tornaram anos de intenso convívio, mesmo que muito frequentemente também sentisse necessidade de passar por fases de maior isolamento  para conseguir reorganizar as ideias. 
       Algum tempo depois já colecionava ditados e provérbios populares por ter percebido que a sabedoria empírica de um aldeão ou pescador muitas das vezes era mais perspicaz e objectiva do que muitos dos mais elaborados conceitos filosóficos. Muitas das vezes englobando esses mesmos conceitos de uma forma mais profunda ainda uma vez que estavam associados à vida vivida. Da mesma forma que o racionalismo dos homens também costuma ser frequentemente ultrapassado e desconstruído tanto pela intuição como pela inteligência feminina. 











        
                                        

 

       

 

 

 

 

         

 

 

 

                              A PERSPECTIVA ALTA E A MAIOR AMPLITUDE 


        Uma  vez um amigo, também já de longa data,  viu um álbum de fotos de vários quadros que tinha feito até 2018 e , talvez por também ter experiência em desenho de arquitectura, comentou que parecia ter tendência para pintar de uma perspectiva sempre com uma cota mais alta do que é habitual para a vista humana. Por vezes mesmo em “vol d’ oiseau” (em voo de pássaro ), disse ele, para se verem melhor todos os pormenores da paisagem. Apesar de saber que era verdade sempre o tinha feito de forma tão natural e espontânea que já nem sequer pensava nisso, nem pensava que pudesse ser uma característica diferenciadora do género de pintura. Só depois de ele chamar a atenção para o facto é que comecei a ter mais consciência  e fui rever diversos quadros antigos e até mesmo desenhos feitos nos bancos do liceu e dei conta que era mesmo uma característica bastante comum nos mais diversos quadros. Respondi -lhe que talvez tivesse a ver com a minha  forma  de estar na vida. Apesar de frequentemente ser bastante participativo também sempre me tinha imaginado como se estivesse, na maioria das vezes, do lado de fora da vida observando apenas os acontecimentos.  Talvez possa ser uma explicação para a tendência de procurar pintar sempre com perspectivas imaginadas numa cota mais alta. Mesmo em quadros em que pudesse usar diversas fotos apenas como orientação, para perceber todos os pormenores, as perspectivas nunca foram iguais às de qualquer foto e eram sempre feitas de imaginação. Tanto as perspectivas como os ângulos de visão e todos os outros elementos eram sempre feitos e imaginados a pensar na composição do quadro e não na realidade representada. Tanto nos quadros como na vida real a vista a partir de um ponto mais alto permite ver bastante mais pormenorizadamente toda a amplitude das imagens.
       Por vezes até costumava pensar que talvez essa forma de estar na vida pudesse ter a ver com uma amizade dos tempos de adolescência que havia marcado bastante. Apesar de ter sido uma amizade aparentemente efémera, bastante curta e sem consequências nem continuidade no tempo, havia vincado a personalidade de uma forma que acabou por influenciar tudo o que aconteceu posteriormente.
       Talvez porque tenha ficado gravada no subconsciente como sendo a pessoa mais equilibrada e adulta, a mais sensata e madura, de entre os jovens adolescentes daquele tempo depois em todas as circunstâncias da vida, por mais críticas ou envolventes que pudessem ser,  parecia influenciar ainda as reacções fazendo com que sempre mantivesse um distanciamento mental em todo o tipo de situações, como se induzisse a uma postura de  estar sempre meio presente meio ausente.
      Talvez até que essa forma de estar na vida, meio ausente meio presente, já antes  fosse mesmo um ponto em comum e fosse isso precisamente que tinha levado a que na altura tivesse sentido tanta empatia. Apenas uma memória de adolescência mas que influenciou o modo de ver e também o modo de estar na vida. Um modo de estar que se mantinha sempre inalterável, quer fosse na solidão nocturna de um quarto de pensão ou quer fosse por entre o entusiasmo de um festival de Verão.  
      Uma forma de viver que nunca deixava de ser consciente de si nem de racionalizar o facto de estar a viver. Como se a consciência de existir estivesse sempre desperta durante o dia todo,  e tanto nos momentos tranquilos de contemplação,  num passeio à beira mar ou a ver o pôr do sol no meio da natureza, como também nos momentos de intensa actividade e até  mesmo também nas situações mais stressantes da vida quotidiana.


       Foi interessante ao ler os primeiros livros de filosofia perceber que entender o que é a consciência era um dos conceitos essenciais tanto para compreender todos os outros conceitos de filosofia como também para entender o que é a própria vida. E interessante também a ideia de que para haver consciência tem que haver dualidade e tem que haver distanciamento em relação às coisas. 
       É até curioso pensar que só agora, ao escrever estas linhas, é que dei conta que uma das memórias mais nítidas que me ficou da juventude e que também sempre me acompanhou foi a de um professor de filosofia ao descrever, de uma forma entusiasmada e ao mesmo tempo compenetrada, o que era a consciência dos seres humanos e toda a sua potencialidade e amplitude. Dizia que a consciência do ser humano era de tal forma imensa que podia todo o universo ruir à nossa frente que a consciência humana mesmo assim era superior porque o universo não tinha consciência de si e o ser humano tinha consciência de si e do universo. Como se a consciência nos fizesse ultrapassar todos os limites impostos pelo facto de vivermos em um mundo feito de matéria e por isso condicionados às noções do espaço e do tempo. 


         Sempre tivera a noção de como todos estes conceitos tinham tido influência na vida do dia a dia mas só quando um amigo chamou a atenção para o facto de ter tendência a pintar como se estivesse a ver de um ponto mais alto do que é habitual para a vista humana é que pensei que todos esses conceitos e a forma de estar na vida -- sempre mantendo algum distanciamento para poder ter uma maior amplitude de visão --  afinal parece que tinham influenciado também a maneira de pintar.   

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                                  VIVER COM OS PÉS NA TERRA


            
        A vontade de conhecer o chão da vida era de tal forma intensa que aos trinta anos um olhar irresistível faria entrar numa aventura de três anos que ao mesmo tempo em que iria fazer descer abaixo do chão para uma experiência 'underground' também fez voltar a andar com a cabeça nas nuvens.
        Uma vez que estava a conhecer uma nova área também no mundo das artes acabou por ser também uma experiência enriquecedora. 
        Aos trinta e quatro anos a necessidade de recomeçar do zero voltou a tomar conta das rédeas do destino e depois de um ano de isolamento voluntário para recuperar o auto controle uma outra alma que também havia passado por experiências de vida bastante semelhantes juntou -se ao caminho.
       Uma vez que a  companheira também tinha jeito para artes decorativas, tinha experiência de atendimento ao público e também tinha os pés mais assentes na terra, desenvolveram de uma forma mais profissional a técnica de escultura de médio e alto relevo feita em pele e pintada com as cores da madeira, que mais tarde passariam a distribuir por lojas em diversos pontos do país. Desde então que a mudança de hábitos foi radical e pouco tempo depois apareceriam dois anjos que passaram a orientar o caminho para o resto da vida, e passariam a ser a força motriz e a inspiração desde esse momento até ao presente. 
       Nos primeiros anos a disponibilidade para trabalhos mais criativos até pode ter ficado condicionada mas com o passar do tempo a estabilidade emocional gerada pela vida familiar foi precisamente o que permitiu continuar a fazer cada vez mais experiências na área da pintura.
               Na juventude optara  por viver com o máximo de liberdade que a vida permitia por causa de também ser a única forma de permanecer fiel à consciência nas decisões que tinha de tomar diariamente e ao mesmo tempo aproveitar todos os minutos de vida para em cada momento fazer sempre o que achava ser mais importante e poder concentrar sempre no essencial entre todas as escolhas possíveis, mas ao mesmo tempo também sentia como se em troca da liberdade tivesse que oferecer algo.
       E esse algo era primeiro o viver a liberdade da forma o mais responsável possível e depois também pensava, por vezes, que teria de retribuir todos os momentos inolvidáveis que a vida ia proporcionando escrevendo uma espécie de diário de bordo. Se o primeiro objectivo até foi possível de ir cumprindo já o diário de bordo foi sendo sempre adiado. Antes de constituir família os assuntos e acontecimentos mais interessantes aconteciam quase sempre ou no meio de viagens tão mirabolantes ou no meio de tão intenso convívio que o tempo ou a disposição que sobrava para escrever era praticamente nenhum. Depois de constituir família a intensidade do viver aumentou ainda mais e, uma vez que se juntou também a necessidade de sobreviver, o tempo para escrever parecia ser ainda menos.  
       Talvez por isso sempre sentira uma espécie de sentimento de culpa latente por quase nada ter escrito, o que fazia com que de tempos a tempos ainda mantivesse o hábito de escrever algumas longas cartas para amigos de longa data, ora divagando ora contando as novidades e pondo a conversa em dia. Daí que por vezes dissessem que me tinha habituado a uma forma de escrever epistolar.
       E talvez também seja esse sentimento de culpa meio subconsciente que fez com que fosse desenvolvendo cada vez mais este esboço de ensaio auto biográfico, apesar de ter tido que fazer um relativo esforço para conseguir deixar o modo de escrita epistolar.
 

10 - Porta Férrea_edited_edited_edited_e
Varanda antiga_edited_edited_edited.jpg
1 2-- Coimbra à noite_edited_edited_edit

                           MOTIVOS DE PINTAR COIMBRA À NOITE



        Coimbra , tendo sido a primeira capital de Portugal, é uma cidade com monumentos que respiram história e acontecimentos do passado ao virar de cada esquina. E com uma silhueta tão peculiar assente sobre o rio Mondego acaba por se tornar  uma cidade ideal para quem se dedica à pintura.       
        Era  frequente fazer pintura por encomenda mas uma vez que mesmo sem ser por encomenda era sempre o tema mais pedido acabou por se tornar um exercício de criatividade fazer o mesmo tema sempre em diferentes perspectivas e usando os variados elementos da paisagem para com eles fazer diversos tipos de composições, sempre únicas e irrepetíveis. 

       Depois , com o passar do tempo o tipo de pintura foi evoluindo naturalmente para um estilo próprio em que predominavam os quadros nocturnos, as linhas finas e precisas, o equilíbrio entre as três cores primárias, as linhas de perspectiva cuidadosamente planeadas,  e os acertos finais que podiam levar vários meses com o quadro em contemplação para conseguir o equilíbrio tanto cromático como na exacta intensidade de luz de toda a composição.
       

        Logo nos primeiros trabalhos de técnica mista de foto colagem com pintura sobreposta, realizados em 1983, onde também tinha a  preocupação de fazer pintura experimental e inovadora, também já tinha começado a usar o negro para fazer realçar a luz e a cor e dar mais profundidade visual. Desde essa altura que a tendência de usar o negro para realçar a cor já se estava a tornar uma característica permanente das experiências que ia fazendo.

       Depois foram -se juntando diversos outros motivos , principalmente estéticos mas também até simbólicos e mesmo sentimentais.
       Desde a juventude sempre gostara mais da noite , tanto para conviver como para trabalhar. As noites de Coimbra, vividas com uma geração ligeiramente mais nova, acabaram por ter grande influência na formação de novos conceitos e novas perspectivas de vida. Durante os anos oitenta  até houve uma moda entre as novas gerações , que perdurou e que provavelmente até terá sido mais espontânea do que lançada pelos estilistas , em que todos se vestiam de preto e com tendência para as roupas de estilo vintage. Talvez até por ser uma forma de as novas gerações dos anos 80 se demarcarem , como forma de afirmação de uma nova cultura , em relação à geração hippie dos anos sessenta e setenta.
        Já não eram apenas os fatos académicos que sempre haviam sido pretos era também a juventude em geral que se vestia de preto. 

        Depois também havia o significado da noite em oposição ao dia. Durante o dia havia todo  ‘o ruído’ e toda a ausência de estética dos prédios , dos carros, trânsito, stress e confusão dos grandes centros urbanos em horário de trabalho,  perfeitamente patente diante dos olhos , enquanto que há noite regressava o sossego, os convívios e  as tertúlias, os namoros,  a liberdade de socializar sem horários marcados. Até a estética dos grandes centros urbanos à noite, quando predominam as luzes, parece ficar diferente, como se o mistério do que não se vê permitisse sonhar mais longe. 
        Uma vez que sempre tivera o hábito de fazer grandes caminhadas, como se fosse uma forma de meditação em movimento, as caminhadas nocturnas, observando ao longe as luzes da cidade, também marcaram de uma forma especial. Caminhar através da liberdade, do anonimato e do mistério da noite, observando as janelas iluminadas e imaginando a diversidade de vidas que estariam proliferando no interior das habitações foi uma memória que sempre ficou gravada, em particular depois de algumas vezes também na noite de Natal ter trocado a missa do galo por longos passeios pelas ruas da cidade. 
        O facto de ter frequentado a vida nocturna devido aos amigos ligados à música e outros, tanto em Coimbra como em Lisboa, entre 1983 e 1993, também influenciou a que imaginasse a noite como o tempo da arte e da criatividade, o tempo do convívio e da ausência de limites para a imaginação. A música também acontecia quase sempre à noite. 

          E na natureza algo de semelhante também acontece , uma vez que durante o dia o sol  ofusca e só permite ver até uma curta distância enquanto que à noite é que é possível ver a luz da lua ou das estrelas até distâncias inconcebíveis para a imaginação humana.         
        Pareciam motivos mais que suficientes para enveredar pela experiência dos quadros nocturnos e tentar reproduzir nos quadros todos os conceitos associados à luz e à noite. 
        Até porque o negro de fundo, que corresponde à ausência de luz, produz um efeito semelhante ao da noite e permite jogar com os efeitos de cores mínimas que passam a ter muito mais preponderância e significado.


 

         Se pensarmos no imaginário colectivo português também é fácil perceber que por algum motivo tanto o fado de Coimbra como o fado de Lisboa se vestem de negro. 

         Desde a canção que dizia "... capas negras a adejar ..." ,  até ao “ Barco negro ...”  da Amália Rodrigues e também sem esquecer as mulheres do Portugal profundo, em luto permanente, desde a Nazaré às mais ocultas aldeias do interior. 
          Por algum motivo o fado está associado apenas à cor preta enquanto que o flamengo espanhol já está frequentemente associado ao preto e ao vermelho. 

          Coincidência ou não mas apesar de gostar dos mais diversos estilos de música o fado tradicional era um dos poucos estilos musicais que nunca procurara conhecer melhor ... até que um dia convidaram para ver ao vivo um concerto com a Ana Moura. Desde então que a curiosidade em relação aos cantores de fado das novas gerações ficou instalada e passou a ser mais uma área musical que ia tentando acompanhar.
        Mas foi só a partir de 2016  que ficaria definitivamente 'viciado' em toda a vasta discografia de Cristina Branco, passando a ser uma companhia por vezes quase diária. O
 porquê de ter começado a gostar de fado apenas com a Cristina Branco tem a ver  com a qualidade das letras dos poemas criteriosamente escolhidos e também porque talvez tenha sido quem mais abriu o leque do fado a diferentes estilos musicais, sem rupturas e de uma forma natural e coerente, havendo mesmo diversos artigos que o classificam de fado - jazz. E no fundo é claro que também tem a ver com o modo como conseguiu encarnar e recuperar a verdadeira essência do fado em toda a sua portugalidade, revivendo -o  de forma profunda e pessoal para depois o fazer evoluir no tempo e na sua própria forma de o interpretar, até o fazer ficar lado a lado com o jazz mais contemporâneo.                             
       Ter -se rodeado de alguns dos músicos e compositores mais interessantes da actualidade portuguesa com certeza que também terá sido decisivo na qualidade final. A maneira como a qualidade da parte instrumental, inovadora e criativa, se adequa a cada uma das letras em simbiose perfeita e a forma como a voz entoa cada frase, cada palavra e cada sílaba, com a afinação exacta e ao mesmo tempo com uma carga emocional tão intensa e tão verdadeira que chega a ser surpreendente  --  fazendo das letras uma história contada, cantada e vivida ao mesmo tempo --  penso que será a razão do imenso sucesso nas mais prestigiadas salas do mundo inteiro perante um público exigente e que mesmo sem entender a profundidade e o alcance das letras continua a acompanhar a carreira desde há já muitos anos.  
       Daí que seja um verdadeiro privilégio entender o português e para além da qualidade musical poder entender também as histórias e todo o enredo literário que está subjacente a cada música e a cada álbum. 
       Como é natural quanto mais recentes os álbuns mais foram adquirindo uma sonoridade personalizada que mesmo sem negar as raízes do fado também não permite que estas limitem a criatividade. 

       Em relação às letras, pessoalmente, até podia dizer que sinto como se o diário que nunca escrevi  e os sentimentos que nunca traduzi pudessem estar em grande parte resumidos nas letras que escolheu e nas que ajudou a criar para o seu reportório.
       ( Os motivos de gostarmos mais de certos timbres de voz não sei se poderá ter explicação). 
      

        E foi assim que as barreiras que sempre tivera em relação ao fado foram desaparecendo e o reportório que fica no link abaixo passou a ser uma das principais companhias tanto durante a execução dos quadros como também nos mais diversos momentos do dia a dia. Apesar de o reportório também ir muito para além do fado imagino que no futuro ficará na história da música portuguesa como um dos mais sérios trabalhos de recuperação do fado em toda a sua essência e em toda a ancestralidade que se perde na noite dos tempos. 

      A música sempre foi o maior e o mais permanente 'vício' e também a companhia mais presente ao longo dos anos, tanto durante a execução dos quadros  como em todos os outros momentos, por isso é natural que a lista fosse infindável. Mas aproveito para deixar aqui apenas alguns nomes dos que foram uma companhia mais assídua nestes últimos anos.
         Rádio Macau , Flora Purim
, Chick Corea, Lisa Hannigan, Melody Gardot, Sona Jobarteh, Stacey Kent, Céu, David Gilmour, Tindersticks, Loreena McKennitt, Agnes Obel, Hania Rani, Angelina Jordan, ...
         Que me perdoem os tantos que ficaram por nomear mas se o fizesse acabaria por construir uma Fonoteca e o motivo também é o de não querer abusar da paciência nem do tempo dos leitores. 
       Se algum dos links servir para alguém se interessar pela carreira do autor ou por uma nova área musical já valeu a pena a divulgação. 





 


   

     
   

 

 

 

    
 

   



 
 

     

 

 

 

 


       É natural que as preferências musicais também fossem mudando consoante as fases de vida. Se fosse aos trinta anos, por exemplo, possivelmente teria começado a lista com Cocteau Twins.                                 


Ou Laurie Andersen ...



 

 

 

       E a companhia musical mais antiga, que desde os anos 80 sempre acompanhou o percurso, desde o tempo em que costumava gravar o programa em cassete  para depois ouvir em qualquer altura, e que servia de inspiração para pesquisar e conhecer novos músicos e autores é claro que não podia deixar de ser o programa radiofónico  Íntima Fracção do Francisco Amaral.  

        Um programa emitido quase sempre depois da meia noite e que ao longo de 35 anos
foi passando por diversas radios nacionais. 

RIA DE AVEIRO 

                         A INFLUÊNCIA DAS PAISAGENS DA RIA DE AVEIRO



         A vista, depois da capacidade de pensar, é provavelmente o sentido mais importante para a formação da percepção e da idealização que temos em relação à vida e ao mundo que nos rodeia. A perspectiva que cada um de nós tem em relação ao campo visual é sempre subjectiva e inseparável da nossa vida pessoal, e como é natural as imagens que mais nos marcam são quase sempre as da infância e adolescência.

        Desde a mais tenra infância, passada numa quinta de aldeia e o Verão passado nas planícies aquáticas da Ria de Aveiro, que tinha lembranças de ficar longos períodos sozinho e imóvel apenas observando e tentando descodificar sensorialmente todos os elementos da paisagem. Sabia que não era habitual uma criança ficar tanto tempo imóvel, em simples contemplação, mas, talvez por ter vivido os primeiros cinco anos da infância sozinho em uma grande quinta enquanto os avós trabalhavam,  era o que frequentemente sentia vontade de fazer. Mais tarde meditar nos acontecimentos da vida observando as paisagens ao mesmo tempo era como se fosse uma forma ainda mais intensa de viver.  E viver de forma intensa e ao mesmo tempo tranquila acabou por se tornar o principal objectivo de vida. 

        O hábito de estar sempre atento ao que acontecia em redor fez com que muito tempo depois até mesmo nos momentos mais activos a atenção permanente em relação aos  pequenos pormenores das imagens acabasse por se tornar uma constante.                      Recordava frequentemente quando tinha cerca de cinco anos e costumava deambular sozinho pela quinta e era frequente lanchar em cima das árvores colhendo frutos das mais variadas espécies. A experiência que já tinha na observação das cores fazia com que escolhesse as melhores frutas de cada árvore apenas por subtis nuances da cor e da pigmentação. Isto para dizer que até a percepção sensorial que a cor da fruta por vezes despertava no subconsciente e nas papilas gustativas ia tentando incorporar nos quadros. 
       Da mesma forma que também mais tarde, quando sozinho arriscava a ir demasiado longe num pequeno barquito a remos com que costumava explorar as margens da ria de Aveiro sabia por pequenas alterações na cor do céu que o tempo ia mudar e que estava na hora de regressar a casa. A paisagem da Ria de Aveiro com os seus horizontes sempre a perder de vista e os barcos, as velas brancas, gaivotas e moliceiros de formas esguias e elegantes planando sobre as águas, foi provavelmente a paisagem que maior influência teve na formação dos conceitos de beleza e estética visual e também no sentimento de pertença a um lugar e a uma origem.

        A água sempre como elemento primordial, uma vez que a sensação era a de viver numa ilha em que o continente era apenas uma linha ténue e longínqua que frequentemente se esfumava no horizonte e que a memória, inconscientemente, também tentava esquecer para viver apenas o tempo presente e mágico das ilhas. Um ambiente tão mágico e tão isolado do resto do mundo que até fazia com que o modo de vida dos pescadores e dos veraneantes se entrecruzasse permanentemente numa cumplicidade que favorecia ambos os modos de vida.
       De um lado as águas mornas , doces e tranquilas da imensa Ria. As águas onde os mais novos aprendiam a nadar, as águas protegidas das tempestades e do vento Noroeste, as águas onde era possível navegar em barcos a remos, a motor  ou à vela sempre descobrindo novas paisagens, novas cores, matizes e profundidades, tanto na água como no céu. As águas à beira das quais nas noites de Verão se juntavam diversas gerações, passeando namorando ou convivendo.
     Do outro lado da ilha e a uma curta distância a água do grande Mar, o mar  selvagem e infinito, de luz tão forte que nos fazia baixar o olhar. O mar onde apenas se aventuravam os temerários pescadores em dias que só eles sabiam. E na volta do mar todos sentiam orgulho em ajudar a puxar as redes. O mar onde os mais novos iam desenvolvendo a sua coragem mergulhando em ondas com três e quatro vezes a sua altura. O mar  que nos fazia meditar no poder e na infinita magnificência da natureza.
         Só muitos anos mais tarde é que viria a ter consciência de até que ponto é que aquelas paisagens de extremos tinham tido influência na formação da personalidade. A dicotomia entre o mar agreste e selvagem, onde também gostava de percorrer sozinho quilómetros e quilómetros de praias desertas mesmo que o tempo estivesse de chuva, e a ria serena, doce e tranquila, onde mais frequentemente convivia com os amigos, passaria a estar sempre presente em todas as situações da vida e consequentemente também nas formas de expressão através da pintura.

        A dualidade é a base da vida. Sem dualidade nada existiria ou aconteceria. O dia e a noite, a lua e o sol, a mulher e o homem, etc, etc. Talvez por isso as memórias daquela paisagem tenham sido tão importantes ao estabelecer mais dois símbolos de dualidade entre a Ria e o Mar. 
       O nascer do sol e o dia sobre a ria e o pôr do sol e a noite sobre o mar. Ou as manhãs de praia do lado do mar e os longos passeios à tarde e à noite do lado da ria.
        Na pintura a dualidade passou a ser entre a luz e a ausência de luz.  


        E claro que o grande bando de amigos e amigas de Verão com quem convivera desde a infância até ao fim da adolescência também foram imprescindíveis e foram os que ajudaram a tornar para sempre inseparável a beleza exterior e a nostalgia e beleza intrínseca das personalidades.
        É natural pois que muitos anos mais tarde o sentimento de frustração em relação a quase todos os quadros que ia fazendo também fosse uma constante uma vez que a imaginação corria sempre muito mais à frente do que o pincel conseguia alcançar.

         Esta influência do contraste entre a serenidade da Ria e a impetuosidade do Mar ficou expressa num painel da técnica mista de foto colagem com pintura sobreposta que pode ser visto na página de Foto - colagens deste mesmo site com o título "O homem do leme" . 
         Em 1984 , precisamente por ter começado a ter consciência da influência que todas estas paisagens da ria e do mar tinham tido na formação da personalidade, o destino permitiu que fosse viver durante dois anos para a mesma casa de praia onde tinha passado o Verão na infância e na adolescência. O painel intitulado " O homem do leme" e o painel com o título "O palco e os bastidores de Lena d'Água" foram feitos durante estes dois anos, sobre uma grande mesa com dois metros de comprimento por um de largura, e mesmo à frente das janelas por onde se podia ver a Ria de Aveiro com os horizontes sempre a perder de vista.

               
 

         A descrição desta paisagem foi motivada pela influência que todo o ambiente teve tanto na formação da personalidade como na elaboração dos conceitos de estética visual.
        Muitas outras influências foi havendo mas esta é com certeza a mais significativa. 
       Uma outra influência que também merece ser mencionada foi o facto de na casa paterna ter uma grande colecção de livros de pintura. Eram livros com texto mas essencialmente com fotografias de página inteira dos mais diversos quadros da pintura clássica. Apesar de as páginas serem de grandes dimensões toda a vasta colecção estava dividida em fascículos com um fascículo para cada pintor, por isso era frequente, durante toda a adolescência, levar para o quarto os fascículos de um ou dois pintores de cada vez e por vezes passava horas a desfolhar e a ver com atenção e minúcia os quadros dos diversos pintores. 
       A tal ponto esta influência também foi marcante que muitos anos mais tarde viria a tomar consciência de que as figuras angelicais de Leonardo da Vinci também tinham influenciado de alguma maneira os próprios ideais de beleza feminina que dava conta de ter dez ou quinze anos mais
tarde.  

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10 - Porta Férrea_edited_edited_edited_e

                                        OS MOTIVOS DE USAR A COR NEGRA 



          Depois de todos os outros motivos para usar o negro, tanto simbólicos como pessoais, culturais ou até mesmo naturais, já antes explicados, chega -se enfim ao motivo último.
         O negro enquanto ausência de luz. 
         O negro enquanto ausência de luz faz com que qualquer efeito de luminosidade tenha uma intensidade e uma preponderância muito superior ao de um fundo claro e ao mesmo tempo  também faz com que as cores tenham de ser sempre muito bem pesadas em todas as suas consequências.
      A luz de uma fogueira durante o dia não chama muito a atenção mas à noite pode ser vista a vários quilómetros de distância. Até a luz de uma vela pode ser vista bastante longe. 
       E é essa intensidade aumentada de qualquer traço, cor ou forma, que faz com que os quadros aparentemente realistas se transformem num grande jogo de equilíbrio para não permitir que o quadradinho azul brilhe mais que a bolinha amarela e faça com que o olhar se desvie da imagem principal e se perca em algum canto da composição até tropeçar no risquinho vermelho e cair para fora da tela. 
      Algo de semelhante também acontece na fotografia a preto e branco em que nem sequer existe a cor para distrair do foco principal.

 

       Apesar de os quadros serem aparentemente figurativos depois de toda a base de fundo pintada a realidade da imagem deixa de ter qualquer importância e é como se fosse um quadro abstracto em que apenas contam os quadrados , os triângulos , círculos ou manchas.
       As casas deixam de ser casas para ser apenas rectângulos, os telhados as janelas e as sombras passam a ser apenas formas geométricas coloridas. As linhas principais e secundárias passam a ser mais ou menos acentuadas em função de todo o conjunto. As próprias linhas de perspectiva são constantemente distorcidas se uma determinada mancha de cor ficar melhor em diferente direcção.  
        Os diversos diâmetros imaginários possíveis são como pratos de balança em que uma cor ou luz a mais de um lado tem que ter outra do outro para compensar .
        As linhas mestras são sempre pensadas em função de orientar a composição num certo sentido.

        Assim os quadros vão se tornando em um prolongado jogo de equilíbrio entre as várias formas, cores e profundidade , baseadas nas diversas experiências da imagem enquanto elemento determinante da nossa experiência existencial.
         As telas depois de terminados costumam ficar pendurados nas paredes de casa e frequentemente mudam de parede para também ir percebendo como é que a luz do quadro reage em relação à luminosidade exterior. Por vezes mais tarde passam por remodelações diversas, mais ou menos profundas, e quase sempre por acertos de variados pormenores.  
         Durante a fase de contemplação, com os quadros pendurados na parede e visíveis o dia todo, é como se os quadros se tornassem numa mandala de meditação em que ao fim de muito tempo de observação permanente e intensiva os pequenos desequilíbrios de cor ou intensidade se notam cada vez mais e levam a constantes alterações.     
         Ao fazer os quadros é frequente imaginar os vários diâmetros e lembrar das balanças antigas que havia nas mercearias em que se colocava o produto de um lado e os pesos cada vez mais pequenos do outro até à fase final das gramas que, na base de tentativa e erro, faziam o pêndulo ficar precisamente a meio. Traduzindo o mesmo processo para todos os diâmetros possíveis da tela é mais fácil perceber que uma pequenina mancha pode ser o suficiente para desequilibrar todo o conjunto.



        Depois de todos estes anos a fazer experiências com o contraste entre a cor negra total e a intensidade de luz de cada uma das outras cores foram surgindo também algumas experiências de pintura com imagens inspiradas em pormenores de natureza selecionados de forma a que a imprevisibilidade do desenho possa proporcionar diferentes efeitos visuais. Na mesma linha do contraste claro escuro desenvolvida anteriormente mas com mais liberdade inicial na parte do desenho, com a possibilidade de conjugar cores e efeitos ainda mais diversos, criar ambientes que só quando imersos na própria natureza é possível perceber e deixando de usar as linhas rectas, próprias da paisagem urbana para usar apenas linhas curvas. 
        A intenção é tentar proporcionar através da pintura sensações semelhantes às de quando se está embrenhado no meio da natureza, tanto em movimento como em simples contemplação estática, e a própria natureza funciona como terapia de relaxamento em oposição às imagens disformes e confusas da vida urbana e dos objectos de uso diário próprios da civilização. E ao mesmo tempo fazer dos próprios quadros imagens de contemplação,  passando por sucessivas transformações até atingir o ponto de equilíbrio tanto na cor como na intensidade da luz de todo o conjunto. 

      Dificilmente poderá ser explicado mas a sensação de alterar as cores e a intensidade de luz de cada forma na fase final dos quadros faz pensar que é como se as cores, à semelhança das notas de música, também tivessem escalas e pudessem ser afinadas para não haver acordes dissonantes.           

           Daí que uma das intenções dos quadros é que quando chegam ao final se possa ter a sensação de que entre as formas os traços e as cores existe  uma harmonia e uma afinação semelhante à de uma composição musical. 

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5 -- Vista do Mosteiro da Rainha Santa

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   2 de Maio de 2015 –  Francisco Amaral

“ Exposição da pintura sobre Coimbra do Carlos Seabra ... na Figueira da Foz ! Vou lá ver! ( escrevi sobre isto no evento criado no Facebook )

... Lá irei. O Carlos continua a resistir com a sua produção artística e estou muito curioso para a ver. Também escrevia muito bem. Uma escrita pura, quase de inocência, não filtrada por preocupações estilísticas. O Carlos é um dos mais interessantes criadores de Coimbra que se mantém completamente na margem e penso que faz bem em não se meter no rio da presunção que por aí abunda. Não está à frente nem atrás. Está acima ! A sua obra não tem preço. “

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     ( Agradeci a opinião dizendo que a inocência exagerada no modo  de escrever era intencional e propositada, -- quase como ironia ou como forma de crítica velada em relação a uma sociedade que apenas educa para a competição  e não para a colaboração, e onde falar de sentimentos parece ser sinal de fraqueza  -- e que a inocência verdadeira, essa, também tinha dado muito trabalho a conservar ... )

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         Francisco Amaral  ( 1951 - 2019 )   
         

  Formação académica -
             Escola Superior de Belas Artes Lisboa / Faculdade de Letras UC

                      Master’s Degree -- Artes Visuais, Arquitectura, História da Arte
               1970 - 1986      (in Linkedin ) 



            Produtor e realizador de audiovisuais.   
            Director da ESEC TV (RTP 2).     
           Autor de vários programas de rádio entre os quais o "Íntima Fracção" ( programa que resistiu ao longo de 35 anos na Antena 1, TSF, Radio universidade de Coimbra, Radio Clube Português, Radio Radar e  Expresso Online).
           Director de Produção em televisão.    Colaborador da Sic e RTP 2 . 
           Docente universitário na área da Comunicação e das Artes.
            Professor e coordenador da licenciatura de Multimédia no Inst. Sup. Miguel Torga.
          
                   ( Currículo copiado do site Caminhos do cinema português )

          

1la Superior de

       A melhor homenagem que poderia ser feita talvez fosse a de tentar recuperar as gravações dos programas mais antigos e disponibilizar ao público talvez através do arquivo do site Expresso online ou talvez também no arquivo da Esec  TV , ou qualquer outra instituição que possa ter interesse em preservar a sua obra. 

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