JARDIM DAS MEMÓRIAS



--------- MEMÓRIA GENÉTICA -------------------------
--------------------------- E AS TENTATIVAS DE IR PARA O BRASIL ----------------------------
O facto de querer recomeçar a vida a partir do zero no início da juventude, desligando o mais possível da herança da educação familiar e social, apesar de ser uma circunstância foi também uma opção voluntária e consciente, mesmo que pudesse parecer de alguma forma uma ‘inconsciência’ ou um 'desvario' . Sabia que a principal motivação era a de querer poder pensar que vivia no mundo igual a qualquer outro ser humano, nascido nas mais diversas circunstâncias e condições de vida, e ao mesmo tempo ser o mais independente e o mais livre possível, sem dever nada à família, se possível nem sequer a dívida da memória genética.
Sabia que para conviver com pessoas de todos os estratos sociais seria mais fácil se não tivesse por trás o estigma de ter nascido numa família mais favorecida. Quando na prática a infância e adolescência talvez até tenham sido mais desfavorecidas que a maioria das pessoas pelo simples facto de ter vivido quase sempre sozinho até aos seis anos de idade numa quinta em que os avós passavam o dia todo ocupados no trabalho e praticamente só os via à hora do jantar, e depois já quase na adolescência e início da juventude ter perdido ambos os avós com quem havia sido criado e ambos de uma forma que tinha motivos suficientes para ser algo traumática. Aos oito anos estava com o avô no quarto da clínica quando ele faleceu por entre ligeiras convulsões. Pouco minutos depois as enfermeiras, em estado de grande aflição e ansiedade, disseram para ir a casa a correr chamar a avó ... foram dias em que em vez da tristeza normal pela situação parece que os sentimentos predominantes eram os de um nervosismo, stress e ansiedade, difíceis de descrever, e em que os adultos passavam apressadamente ao lado das crianças como se estas nem sequer existissem nem tivessem sentimentos ou só existissem para fins práticos e utilitários. Depois, apesar de já viver em Coimbra, acharam que tinha obrigação de ir passar os fins de semana com a avó na quinta para a ajudar a ultrapassar a depressão.
Anos mais tarde, também em Coimbra, foi preciso partilhar o quarto com a avó durante vários meses, na fase terminal da doença. Numa fase da vida em que devia estar a pensar em namorar tinha de voltar a casa à meia noite porque sabia que a avó estava à espera para rezar o terço a meias antes de dormir, num quarto dividido apenas por um grande guarda vestidos.
Apesar de haver algumas recordações felizes na quinta as recordações felizes de infância concentravam -se quase todas no mês de Agosto e por vezes a primeira quinzena de Setembro na praia da Costa Nova na Ria de Aveiro, até aos quinze anos.
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Enquanto estudava uma das disciplinas que despertou maior interesse foi a de Psicologia da hereditariedade. Uma vez que na altura era possível, em algumas disciplinas, substituir o exame final por trabalhos de investigação tanto em Psicologia da hereditariedade como em História da Arte e também em História das Religiões resolvera fazer antes trabalhos de investigação por serem as disciplinas em que tinha mais interesse naquele ano.
Em psicologia da hereditariedade foram vários meses de volta dos livros e artigos sobre as crianças selvagens, principalmente o livro mais conhecido de Lucien Malson, com o mesmo título de As crianças selvagens – Mito e realidade. As crianças selvagens foram crianças que em diversos momentos da história e devido a diferentes circunstâncias foram afastadas da sociedade humana e viveram exclusivamente com animais durante os primeiros anos de vida, sem aprender a falar e adoptando comportamentos e hábitos alimentares semelhantes aos animais com quem viveram.
A intenção do trabalho desenvolvido era a de provar que a personalidade humana de um modo geral é influenciada em cerca de oitenta por cento pelo meio ambiente em que foi criada e talvez apenas cerca de vinte por cento é que é memória genética. Claro que é apenas uma tendência generalizada uma vez que pode haver muitas variações de pessoa para pessoa e também pode haver famílias em que a memória genética é bastante mais despertada do que em outras através da educação, do exemplo ou da simples empatia.
A consciencialização que ia adquirindo enquanto estudava este e diversos outros assuntos foi o que ajudou mais tarde a reconstruir a própria personalidade a partir do zero.
Parece quase contraditório pensar agora que recomeçar a vida a partir do zero foi algo que também me foi incutido pela educação familiar, de ambos os lados mas principalmente do lado da família materna, talvez porque a autonomia fosse um valor que ia sendo passado pela educação familiar de geração em geração. Só que também é possível que eu tenha levado essa espécie de tendência da herança genética bastante mais longe do que seria espectável. A ponto de já nem sequer ser reconhecida pela própria família.
Depois de saber agora quem foram os antepassados até gerações que remontam ao séc. XIV e também a história de vida de um vasto leque de descendentes dos mesmos antepassados fiquei a pensar que afinal talvez as memórias genéticas escondidas no subconsciente tenham uma influencia maior na formação da personalidade do que aquilo que pensava no início da juventude, mesmo sabendo que a educação e o ambiente após o nascimento continuam a ser sempre preponderantes.
Mas por outro lado também fiquei a pensar que provavelmente terá sido melhor não saber quem eram os antepassados no início da juventude pois seria provável que houvesse alguma influência em opções que foram sendo tomadas e que teriam desvirtuado o caminho seguido.
O pensamento agora era o de que tinha feito bem em não querer saber quem eram os antepassados e também em ter feito o que podia para desligar e não dever nada à família. Caso contrário seria muito provável que alguém dissesse “ ah, ele fez a vida que fez porque tinha a família na retaguarda … “
Principalmente se tivesse chegado a ir para o Brasil como era uma das intenções desde os dezasseis anos. Projecto de vida que foi adiado por diversas vezes e que aos 28 anos voltou a ser adiado uma última vez, apesar de ter estado quase com um pé no avião por causa de uma grande amiga brasileira que tinha conhecido em Portugal e que mais mais tarde também voltou ao Brasil.
Querer ir para o Brasil, ou para França, desde os dezasseis anos era motivado principalmente pela consciência de viver num país sob ditadura, bastante triste e cinzento e com um grande atraso cultural em relação aos outros países.
Se tivesse optado por ficar dependente da família que já lá vivia era possível que até tivesse chegado mesmo a ter ido para o Brasil .
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Quando tinha cerca de dez anos um tio avô veio do Brasil a Portugal passar férias e conhecer as novas gerações da família do lado de cá do Atlântico. Com ele vinham as quatro filhas que teriam entre 16 e vinte e tal anos. Calhou -me a mim, um miúdo que ainda nem adolescente era, ir mostrar a quinta às filhas enquanto os mais velhos ficavam a conversar. Para um miúdo habituado a um país negro, frio e cinzento, como era o Portugal dos anos sessenta, ver quatro raparigas assim, muito alegres e joviais, vestidas com roupas muito leves e muito coloridas, todas elas lindas como autênticas deusas, e falando comigo com uma simpatia, uma ternura e uma boa disposição, como nunca ninguém tinha falado antes, claro que foi motivo mais que suficiente para ficar completamente deslumbrado. Era mesmo como se viessem de outro mundo, um mundo alegre vivo e colorido, que pela energia transmitida só podia ser mesmo paradisíaco. Imagino que aquele encontro tenha tido para mim um impacto semelhante ao que os índios brasileiros tiveram quando viram os europeus pela primeira vez.
Para além das quatro primas terem deixado uma memória que não mais se apagaria o tio avô também deixou lembranças que ainda hoje parecem bem vivas. Para além de ser tão charmoso quanto o Clark Gable, com uma forma de estar e de sorrir bastante semelhante, e talvez até mais elegante uma vez que a principal diferença parecia ser o facto de ter uma maneira de estar menos cinéfila e mais espontânea e natural. Era de tal forma parecido que seria muito fácil fazer -se passar pelo Clark Gable para quem só o conhecesse através do cinema, e também era de uma boa disposição que deixou marcas profundas quando me convidou para ir um dia, mais tarde, ter com ele ao Brasil.
Como é natural a vida continuou no Portugal dos anos sessenta, mas a semente ficou lá, e a noção de que vivia num país diferente dos outros começou a formar -se desde essa altura.
Aos dezasseis anos a ideia que tinha da cultura brasileira já era formada muito mais pelos músicos brasileiros do que pela imagem com que tinha ficado dos familiares que lá viviam. Sabia que muitos primos tinham emigrado para o Brasil para começar a trabalhar com os tios e depois fazerem a sua própria vida, só que não conseguia imaginar -me a viver na dependência de familiares e pensava que se também fosse queria ir por minha própria conta e risco.
Aos dezassete anos já tinha feito a inspecção para o serviço militar e tinha ficado aprovado para a marinha. A intenção seria conhecer o mundo através dos navios e se fosse possível depois ficava no Brasil. Já não havia guerra pois o 25 de Abril tinha sido um ano antes, mas como também não conseguia imaginar -me a desperdiçar dois anos da juventude, e muito menos a cumprir ordens desconexas de sargentos no serviço militar e a dormir em camaratas, aos dezassete anos saí de casa disposto a arranjar trabalho nos navios em Lisboa. Levava uma longa lista com os endereços de todos os escritórios ligados à navegação que tinha conseguido encontrar na lista telefónica ou que tinham sido indicados por outros telefonemas que já havia feito antes. As primeiras tentativas seriam nos escritórios ligados às companhias de cruzeiros mas como já sabia que devia ser mais difícil também ia disposto a aceitar qualquer tipo de trabalho, por mais duro que fosse, em navios mercantes. Foram dias e dias a correr os escritórios e a receber respostas negativas por causa de ter apenas dezassete anos e ainda precisar de uma autorização formal dos familiares responsáveis. Precisava também de tratar de uma cédula marítima que parecia não ser assim muito difícil de conseguir. Imaginava que se fosse para aceitar qualquer tipo de trabalho seria mais fácil passar ao lado das burocracias. Já em desespero de causa continuei por vários dias a tentar arranjar trabalho em navios mercantes de forma clandestina, mas ninguém se queria responsabilizar pelas possíveis consequências num país que tinha acabado de sair de quarenta anos de ditadura.
Meses antes também tinha andado pela zona da Covilhã e do Fundão a tentar arranjar contactos de ‘passadores’ , os homens a quem se pagava para passar a fronteira por caminhos que fugiam à guarda fronteiriça, uma vez que o único outro país em que imaginava conseguir viver, além do Brasil, era em França. Se fosse para o Brasil imaginava conseguir entrar no mundo da música, quer fosse como instrumentista ou como ajudante na montagem dos palcos. Já tinha percebido que vivia numa sociedade em que os músicos e as outras profissões criativas pareciam ser os únicos ambientes profissionais mais saudáveis, mais solidários e mais felizes também. Se fosse para França também imaginava poder começar a trabalhar como figurante de cinema e depois logo se veria onde conseguia chegar.
E foi por isso que depois de Lisboa fui para a região do Fundão, onde já tinha andado antes a tentar saber o que precisaria para passar a fronteira, mas já tinha gasto o dinheiro quase todo e sem dinheiro suficiente não havia nenhum ‘passador’ que se arriscasse a tal empreendimento. Nem mesmo se ficasse algumas semanas a trabalhar para pagar os dias da viagem pelas montanhas.
Tinha passado já mais de um mês fora de casa mas mesmo assim não queria desistir e continuei tentando por outras vias. Quando percebi que era impossível encontrar alguém que indicasse os caminhos para passar a fronteira sem pagar avultadas quantias voltei para a região de Leiria e Nazaré para tentar arranjar trabalho em restaurantes, e mais uma vez as respostas foram sempre negativas, até porque já era quase o fim de Setembro, altura em que também terminavam os trabalhos sazonais.
Na Nazaré, em frente ao mar, quase podia ver nitidamente toda a vida com que havia sonhado a desmoronar-se como um castelo de cartas do lado de lá da linha do horizonte. Mesmo assim também não queria voltar a Coimbra onde também sabia que praticamente de certeza que já tinha perdido a única motivação que me podia fazer querer lá viver.
Já tinha passado uma semana praticamente apenas a beber água mas mesmo assim não tinha coragem para desistir. Pensei então em ir até Fátima, uma vez que também estava perto, e convencido que talvez conseguisse algum tipo de apoio ou acolhimento. No caminho para Fátima aconteceu algo que nunca tinha pensado que pudesse acontecer. Tinha resolvido ir a pé por atalhos no meio dos montes, desde Leiria, uma vez que a distância era cerca de 20 quilómetros, o que se fazia facilmente num dia de caminhada. Mas ao fim da tarde foi com enorme surpresa que percebi que estava no mesmo sítio de onde saíra pela manhã, o que quer dizer que tinha percorrido um círculo com cerca de 20 a 30 quilómetros.
Desde os 7 anos que andava nos escuteiros e tinha tido a sorte de andar num agrupamento que era um tanto ou quanto “fora da caixa”. Apesar de cumprirem as formalidades que eram mesmo indispensáveis faziam tudo o que podiam para evitar as cerimónias e os rituais uma vez que só queriam era estar com os amigos para poder fazer actividades de campo no meio da natureza, quer fossem caminhadas a ‘corta- mato’ em que se fazia uma média de 20 a 30 quilómetros por dia usando os mesmos mapas topográficos que se usava no serviço militar, ou acampamentos de Verão e de Inverno em que se testava os limites da sobrevivência com o mínimo indispensável, ou a fazer pontes de corda para atravessar pequenos rios ou falésias, etc, etc. Nos grandes acampamentos internacionais, a que chamavam de ‘jamborees’ , com vários milhares de escuteiros, já eram conhecidos por ficarem frequentemente entre os primeiros lugares nas mais variadas provas de sobrevivência na natureza.
Era por isso que estava habituado a ter um sentido de orientação de tal forma treinado que bastava ver o sol e a qualquer hora do dia, tanto na cidade como no campo, sabia sempre para que lado era o Norte e o Sul, o Este e o Oeste. Estava de tal maneira confiante no sentido de orientação que tinha passado por algumas aldeias, cumprimentara algumas pessoas, e nem sequer perguntara se estava no caminho certo. O problema pode ter sido mesmo o excesso de confiança, até por estava um dia bastante nublado e só se conseguia ver o sol de vez em quando. Talvez que o cansaço acumulado também possa ter tido alguma influência e ajudado na distracção. Uma das recordações que ficou desse dia foi a de estar a meio de um caminho, num monte totalmente isolado de qualquer tipo de civilização, e o cansaço ter feito com que encostasse a cabeça a uma oliveira por um período de tempo de que perdera a noção, reparando depois nas formigas que subiam e desciam o tronco laboriosamente e começando a imaginar como seria todo o microcosmo das formigas e da oliveira.
Depois de dormir uma noite ao relento, no dia seguinte lá passei por uma aldeia pedindo indicação do caminho, e ao fim da tarde já estava a chegar a Fátima. Uma vez que era um dia normal de semana o recinto do santuário estava quase deserto. Depois de um dia nublado o sol reaparecera e a sensação de paz de que os peregrinos tanto falam parecia quase palpável e como se pudesse ser respirada no ar purificado.
A própria geografia do lugar também parecia ajudar na sensação de tranquilidade. Todos os caminhos em volta eram a subir e apesar da inclinação não ser muito acentuada era permanente. Pelos montes em redor as pedras de origem calcária pareciam ser uma constante fazendo com que todos os terrenos, agrícolas de pastagem ou baldios, estivessem divididos por pequenos muros de meio metro de altura, lembrando ruínas antigas. Era como se o lugar de Fátima fosse um imenso planalto, em que a altura fazia com que estivesse isolado do resto do mundo e em todo o círculo do horizonte em redor apenas se vissem as nuvens suaves em tons de branco azul cinza e lilás e o céu parecesse mais próximo e de um azul muito claro e translúcido.
No recinto do Santuário também apenas o chão fazia lembrar do cinzento das pedras calcárias e depois tudo em redor era branco, desde os edifícios até ao redondo da longínqua colunata com as estátuas recortadas no céu azul e a torre da catedral apontando o céu.
Aquela imagem do recinto com as estátuas brancas formando um semicírculo na direcção do céu ficaria profundamente gravada no subconsciente como daria conta anos mais tarde.
No dia seguinte ainda passara nos conventos de algumas congregações mas nem no Convento dos franciscanos deram guarida, sempre com a mesma justificação de que tinha apenas dezassete anos e precisava de autorização formal dos familiares.
Acabei por ficar ainda mais dois ou três dias a descansar numa camarata de apoio aos peregrinos que chegavam e não tinham onde pernoitar, mesmo por trás da Capelinha das Aparições, e continuava apenas a beber água nos fontanários do recinto.
Num estado de fraqueza cada vez maior e já com sintomas semelhantes aos das quebras de tensão cada vez mais acentuados voltei até Leiria e mesmo assim, sem querer desistir, pensei que iria deixar ser o destino a decidir. Na estrada nacional Norte Sul iria vinte minutos para cada lado da estrada pedir boleia. Se apanhasse boleia para Lisboa iria para Lisboa se apanhasse boleia para Coimbra iria para Coimbra. Depois de já ter estado várias vezes de ambos os lados da estrada acabei por apanhar boleia para Coimbra.
Ao voltar a casa, no dia 28 de Setembro de 1975, estava já em estado de desnutrição bastante grave. Apesar de não ter o menor sintoma de qualquer tipo de sofrimento físico também não tinha apetite. Quantidades mínimas de alimento faziam ficar saciado e se fosse mais ficava até enjoado. Provavelmente o estômago, como é um órgão elástico, tinha ficado de tal forma encolhido que pequeninas quantidades de alimentos eram o suficiente para perder o apetite, e uma vez que não sentia o menor mal estar físico, ou só sentia mal estar se ingerisse demasiados alimentos, pensava que seria alimentação suficiente. Três meses depois dava entrada no hospital em estado de inanição, levando os médicos a pensar que talvez fosse anorexia nervosa. Depois de alguns dias (nunca soube bem quantos) com soro permanente e sedativos bastante fortes acordei em estado de amnésia quase total. Ao ver a equipe de médicos vestidos de branco e fazendo um semicírculo à volta da cama acho que devo ter pensado que não sabia se ainda estava vivo ou se estaria já num outro mundo. Não sei se foi logo na altura ou se foi só mais tarde mas a associação de ideias que sempre fazia ao lembrar dos médicos em volta da cama era com as estátuas brancas que faziam um semicírculo por sobre a colunata no recinto do Santuário de Fátima. Nem da família sequer lembrava. Sabia que tinha alguma afinidade com eles mas não lembrava de mais nada. Depois foi um a dois anos para ir recuperando a memória muito lentamente e com algumas zonas que ficaram sempre cinzentas.
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Esta foi a primeira tentativa de ir para o Brasil.
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Depois de um longo e complicado processo para ir recuperando gradualmente a memória queria voltar a estudar pois também pensava que o exercício mental poderia ajudar no processo de recuperação. Uma vez que ainda não estava completamente recuperado e como também eram os primeiros anos do pós 25 de Abril e a escola pública estava mesmo muito desorganizada surgiu a oportunidade de terminar o liceu num colégio missionário que até ficava bastante perto de casa e que podia frequentar enquanto aluno externo. Logo nas primeiras entrevistas quando percebi que a congregação também tinha vários colégios no Brasil comecei a pensar que podia terminar ali o liceu e depois pedia para fazer o curso no Brasil e no fim do curso logo se veria se queria ir trabalhar com os índios do interior ou fazer alguma outra coisa.
De facto voltar a estudar ajudou bastante no processo de recuperação da memória e com disciplinas como o grego e o latim é provável que a memória até tenha ficado com mais capacidade do que antes. Para terminar o liceu era necessário ir fazer o exame oficial na escola pública e no exame de grego lá tive sorte em conseguir nota suficiente para ir à prova oral. Na prova oral também foi sorte porque o professor de grego que estava a fazer os exames era o mesmo com quem tinha tido aulas no colégio nos últimos dois anos e quando ele percebeu que me estava a ver grego para responder às perguntas mais difíceis lá fez algumas perguntas mais fáceis e deu -me a nota mínima para passar.
Terminado o liceu usei de todos os argumentos possíveis e imaginários para dizer aos directores do colégio que queria prosseguir os estudos no Brasil. Tinha passado dois anos a cumprir escrupulosamente todas as regras mas mesmo assim parece que continuavam a duvidar da minha ‘vocação’ … e aconselharam - me a fazer primeiro o curso de Filosofia no Instituto S. de Estudos Teológicos que por acaso também funcionava em Coimbra e assim tinha mais tempo para pensar e se no fim do curso continuasse interessado logo se veria.
Quando fui a ver o programa e as disciplinas do curso percebi que além das disciplinas de Filosofia e já algumas de Teologia também tinha mesmo bastantes disciplinas de cultura geral que me interessavam sinceramente e acabei por me inscrever no curso.
E foi assim a segunda tentativa falhada de ir para o Brasil … , … ,